...o que acontece dentro de casa?
Flávio Luiz Gouvea
Lúcia tem 16 anos e, apesar de suas incertezas e inseguranças, precisa lidar com as insatisfações de seus pais sempre que acorda para um novo dia.
Ligada aos acontecimentos e à realidade absorta daquela que seus pais um dia transgrediram, Lúcia instintivamente vê em seus amigos uma chance de escapar das críticas e das cobranças que sobrecarregam sua turbulenta vida.
Seus pais, questionando suas atitudes, mal conseguem perceber os conflitos que há muito foram seus próprios. Seus medos e frustrações, suas inseguranças e seus anseios em dar o melhor a Lúcia fazem, tão somente, repelir e desmaterializar a oportunidade de diálogo e compartilhamento das experiências "reais e significativas" deles com as ingênuas e tão reais de Lúcia.
Era 26 de novembro de 1986, uma tarde quente de verão quando Lúcia completava seus 17 anos. Ela teria muitos motivos para estar festejando não fosse a festa que seus pais decidiram realizar. Lúcia sabia que toda aquela preparação seria um ensaio desesperado de mostrar aos convidados, e convidados de seus pais em sua maioria, o quão feliz sua família era capaz de ser. Sua mãe a acordara logo pela manhã, insistindo que ela fosse tratar de cuidar de seus cabelos e de limpar seus sapatos para logo mais à noite. Seu pai havia saído e o dia tinha apenas começado quando Lúcia levantou e foi ao banheiro. Em seu coração, os sentimentos eram confusos, não sabia se desejava desaparecer daquele lugar imediatamente ou se desejava que seus pais, ao menos naquele dia, olhassem-na pela primeira vez.
Lúcia desejava ser notada como uma adolescente que era, porém com um pouco menos de soberba. Adoraria que sua mãe deixasse de lado aquele ar de quem sabia exatamente o que era o melhor para ela. Desejava que seu pai não se consumisse tanto nos pensamentos de seus amigos e colegas de trabalho acerca de como se educa um filho. Muitos deles sequer haviam sido pais, outros tinham filhos que viviam com suas ex-mulheres em casas distantes.
Ela tinha suas dúvidas e seus conflitos pareciam ser indecifráveis e inexplicáveis. Entretanto, somente com seus amigos Lúcia conseguia se expressar livremente. Ela falava das vezes em que ouvia seus pais brigarem ao final da noite, muitas vezes discutindo sobre quem seria o responsável pelo comportamento da filha que, atualmente, estava mais e mais fora do “controle”.
Lúcia não se conformava em não ser ouvida, falava a seus amigos das vezes em que tentou, inutilmente, dizer o que sentia e até mesmo explicar algum comportamento "incorreto" do qual seus pais lhe despejavam inesgotáveis questionamentos e severas críticas.
Adorava dizer das coisas ocultas que decidira realizar quando, magoada, propôs desafiar a autoridade injusta dos pais. "São pra curar minhas lágrimas" dizia. Entretanto, Lúcia sabia que tais coisas nunca lhe trouxeram satisfação, embora aliviavam o eco das palavras e aquele sentimento pesado que ela carregava no peito.
Lúcia, assim como seus pais, mal percebia tamanha batalha que estava sendo travada em sua casa. Talvez fosse parte de sua ingenuidade, talvez fosse sua defesa, mas ela havia decidido lutar com as armas que possuía: havia decidido dar razão a todas aquelas acusações que já estava acostumada a receber em casa. Enfim, não se sentiria mais tão culpada por ser apenas uma adolescente incompreendida.
Por outro lado, seus pais lutavam para determinar restrições importantes aos hábitos da filha, não seria possível deixá-la acabar com sua vida daquele jeito. De maneira alguma, poderiam eles permitir que as influências da rua atormentassem a vida de sua filha. Algo precisava ser feito. Então começaram a confrontar Lúcia com as armas que eles dispunham: palavras, ameaças, restrições, juramentos, espinhos e punhais.
Lúcia não entendia o motivo de toda aquela perseguição. Agora, Lúcia não era mais bem-vista fora de casa. Por algum momento ela se sentiu mais confusa e enfurecida. Como ela poderia se expressar se não mais entre as pessoas que ela havia conhecido fora de casa? Lúcia não conseguia esquecer os momentos libertadores que passava com sua turma, quando ela podia ser ela mesma. Quando podia expor seus problemas e ouvir os problemas semelhantes que seus amigos traziam de casa. Ela havia até mesmo decidido entender o comportamento de seus pais e, mesmo que não conseguisse, havia chegado a uma conclusão: ela não estava sozinha; seus amigos também passavam pelo que ela passava em casa. Não, ela não poderia ficar sem aquelas conversas. Não poderia ficar longe da turma em que ela provara os delírios do álcool pela terceira vez, porém bem menos preocupante como havia sido das duas outras vezes quando o provara em casa, escondida.
Lúcia havia decidido lutar contra as restrições de seus pais, ela faria o possível para continuar com sua liberdade. Porém, cada passo que dava tornava-se um motivo para que seus pais a mantivessem reclusa. Era até bastante óbvio, considerando as maluquices que ela vinha fazendo em sua tentativa instintiva em desafiar "às ocultas" a autoridade a ela imposta.
O círculo estava se fechando para Lúcia, agora ela estava numa situação quase sem volta. Lúcia havia sido afastada de sua turma, estava praticamente sozinha e não conversava mais sobre suas frustrações. Entretanto, Lúcia encontrara uma nova maneira de passar seu tempo: Lúcia havia decidido aprimorar seus sentimentos com relação a seus pais, ela havia decidido odiá-los.
Atualmente o clima na casa estava "harmônico": Lúcia havia sido completamente tolhida de sua liberdade em detrimento a uma família tipicamente "americana". Ninguém jamais comentava à mesa, ou em qualquer outro momento, sobre os reais sentimentos entre as pessoas daquela casa. Os assuntos eram sempre vagos, alheios a quaisquer sentimentalidades. Claro que a cobrança com relação aos estudos continuavam sendo matéria de capa nessas horas.
As coisas pareciam estar indo muito bem, ao menos para os pais de Lúcia que sempre tinham sua filha na cama quando a porta dos fundos da casa era definitivamente cerrada à noite.
Os sentimentos de Lúcia, entretanto, nunca pararam de se aprofundar naquela escuridão fria e desigual que ela passara a viver. Sua maior tristeza correspondia à incapacidade de seus pais em entenderem que ela, uma menina comum, uma adolescente como qualquer outra, estava passando por uma transição importante em sua vida e que sua turma, embora a deixasse ficar mais à vontade com a bebida, ajudava-a a entender o que ela não conseguia entender dentro de casa.
Seu maior ressentimento foi não ter sido capaz de convencer seus pais de que as atitudes que ela tomava não foram ensinadas nas ruas por seus amigos, era uma forma imatura e ingênua de SER LIVRE. Uma maneira inexperiente de lidar com a descoberta da capacidade de transformar a si mesma, de ser capaz de construir sua própria personalidade.
Seus pais, na contramão de tudo, e intimamente afundados em suas próprias concepções de "sabedoria" imaginavam ser seus conselhos suficientes para dotar a pequena Lúcia de conhecimento para o que estava por vir: para sua própria vida.
Entretanto, estavam igualmente ocupados demais, ou cansados demais, para darem ouvidos àquela CRIANÇA de apenas 16 anos de idade. Afinal nessa idade eles já trabalhavam duro e não tinham metade, ou até mesmo nada, do que sua filha tinha. Portanto, isso bastava para ela se dar por satisfeita, pois Lúcia não precisava de mais nada: tinha comida, estudo, roupas, até mesmo um celular, e não trabalhava. Ela precisava ser grata pelo que tinha, e por isso não seria necessário perder tempo ouvindo o que ela tinha a dizer; sabiam exatamente o que ela tinha a dizer e não era nada que valesse a pena pensar sobre.
Já era quase 10 da manhã quando a mãe de Lúcia decidiu ir até o quarto da filha para apressá-la: "Não adianta. Definitivamente essa menina precisa de uma boa lição. Quando vai aprender que o mundo não espera a boa vontade dela? Quando vai deixar de ser tão lesada e se interessar, enfim, por alguma coisa que não seja festas ou computadores?". Sua mãe havia decidido que na manhã seguinte providenciaria o que fosse necessário para enviar Lúcia à casa da irmã no Interior da Bahia para estudar. Certamente as despesas com a vida da filha no Nordeste valeriam o sossego que ela tanto merecia dentro de casa. Quanto a sua irmã, ela não se importaria em receber Lúcia, pois as duas se davam muito bem e tinham uma perspectiva bastante parecida: eram ambas tecnicamente despreocupadas e levavam a vida de forma irrelevante.
À medida que seus passos iam se projetando ao final da escada, chegando ao corredor da parte superior da casa, mais e mais a raiva que sentia da filha consumia seus nervos e pesava sua respiração. Ao chegar ao quarto de Lúcia, seus punhos mal sentiram a rigidez da porta que ainda estava fechada. O som mudo das batidas se misturavam com a voz estremecida da mãe até ela perceber que a porta não estava chaveada. Ao entrar no quarto, a cama vazia a conduziu imediatamente ao banheiro onde Lúcia estava. O som de sua voz diminuiu gradativamente, como se por instinto ela tivesse notado que aquele silêncio não era comum à Lúcia enquanto ela tomava seu banho. Ela sempre adorou cantarolar aquelas músicas insuportáveis de pop-rock moderno. Ao abrir o box, um indescritível calafrio percorreu seu corpo ao ver Lúcia imóvel no chão branco de seu banheiro com azulejos verdes enfeitados com margaridas na parede. Passaram-se alguns segundos até que aquela cena fosse devidamente concebida por Nora. Trêmula, ela esticou os braços na tentativa de alcançar o corpo da filha. De joelhos no piso molhado pode perceber que Lúcia havia partido.
Ainda diante do espelho, Lúcia havia tomado uma decisão: não suportaria mais aquela situação. Não seria capaz de acordar todas as manhãs e se embriagar naquela indiferença ensurdecedora que banhavam todos à mesa do café, que os sufocavam ao meio-dia, no almoço e que a atordoava à noite naquele ritmo quase que ensaiado onde pai, mãe e filha se desviavam entre si nos corredores de casa. Naquela manhã, Lúcia havia deixado uma carta falando de seus sentimentos. Ela havia dito tudo que sempre tentou dizer e fora, várias vezes, interrompida. Falou da insatisfação que sentia quando não era ouvida, quando tinha seus sentimentos subjugados. Expressou sua tristeza cultivada pelas palavras e pelas cobranças sobre ela atiradas, disse nunca ter pedido pelo sustento e que não achava justo somente por isso ser obrigada apenas a ouvir. Falou das vezes que trazia algo diferente e novo para compartilhar em casa e era recebida com um olhar frio e indiferente. Lamentou as horas em que a TV ficara ligada impedindo que ela recebesse a atenção que sempre achou merecer.
Lúcia havia dito algumas das coisas que a sufocavam naquela manhã. Ela não endereçou a carta nem a Nora nem a Walter, apenas a deixou sobre sua cama. Talvez soubesse que ela seria rasgada ou simplesmente esquecida em alguma gaveta logo após ser lida. Porém, o mais frustrante sentimento de Lúcia era o da certeza que, ainda assim, seus pais tentariam procurar, fora de casa, um motivo pelo seu suicídio.