É de madrugada que ela chega.
A consciência que me definha me obriga a apreciar minha mais profunda insignificância. Não são necessários muitos segundos antes que me veja impelido a uma onda gigantesca de introspecção.
São 4 da madrugada e não consigo mais dormir. Não há mais chuva trazendo sua musicalidade, então ligo o ventilador para tentar afastar essa tormenta.
É bem verdade, meus amigos, que sou um punhado de insignificância habitando um espaço vazio. Essa noite fui atormentado e tive que reconhecer que das sensações que mais me infiltravam, a de hipocrisia foi a que sobressaiu.
Fui levado a todas as cenas onde, com ânsia, observava pessoas secas dispensarem comentários vãos acerca do comportamento humano. Falavam num tom de voz que lhes atribuíam uma superioridade tão transparente quanto inexistente.
Contraposto a essas cenas estavam minhas próprias cenas em situações idênticas às que me verteram náuseas. Entretanto, meus atos foram, por minha própria consciência, coroados os mais contaminados.
Com isso, foi a decisão de escrever a todos vocês que me devolveu o sono daquele início de manhã.
Sim, sou um hipócrita inútil! Não tenho sequer a coragem de me utilizar do subterfúgio de “humano” para justificar absolutamente nada. Estou tão somente assumindo essa condição de inferioridade diante de minha própria arrogância. Portanto, redimo-me perante vocês.
Continuo imensamente chato e alheio às superficialidades que agradam a grande maioria. Ainda não consigo acreditar, embora devo me esforçar ao máximo em respeitar, na finalidade das coisas vagas, no discutir comportamentos, nas histórias dispensáveis das novelas.
Prefiro acreditar, não por me considerar melhor, mas por considerar de extrema necessidade, que a raça humana deva usar suas capacidades para exercícios mais individuais. Que experimentem pensar sozinhos ao invés de engolir essa enorme “sopa de letrinhas” (perdoem-me o chavão).
Fermin Romero de Torres (personagem de A Sombra do Vento) em seus discursos, já no final dos anos 40, afirmava seu medo de que a humanidade, com o advento da televisão, não seria mais capaz de pensar por si.
Preciso mesmo evoluir junto com os anos, mas acima de tudo preciso não me esquecer que todo conhecimento e experiência se anulam nas ações movidas pela intolerância e hipocrisia.
Grande abraço.
